Dois cães deixaram de produzir uma proteína ligada à maioria das reações, porém a técnica ainda está em fase experimental e não elimina todos os riscos.
Dois beagles chamados Alfie e Bailey colocaram a biotecnologia no centro de uma pergunta que parecia ficção científica: seria possível criar um cão que não provoque alergia? Um estudo publicado em 5 de agosto apresentou os primeiros cães geneticamente editados para deixar de produzir a Can f 1, proteína presente na saliva, nos pelos e na descamação da pele. O resultado chama atenção, mas ainda não significa que cães livres de alérgenos chegaram ao mercado.
O que os cientistas fizeram
Os pesquisadores usaram a ferramenta CRISPR Cas9 para desativar o gene responsável pela Can f 1. Depois, recorreram à transferência nuclear de células somáticas, técnica utilizada em clonagem, para gerar as duas fêmeas. Nascidas em setembro de 2024, elas apresentaram desenvolvimento considerado normal durante o acompanhamento. As análises não detectaram a proteína na saliva, nos pelos ou na descamação cutânea.
O estudo também realizou sequenciamento do genoma e informou não ter encontrado alterações indesejadas nos locais examinados. Em um teste cutâneo com uma pessoa sensibilizada, amostras de cães não editados provocaram reação visível, enquanto o material de Alfie e Bailey não produziu resposta detectável. A intervenção atingiu o alvo planejado, mas um único participante não permite prever como diferentes pacientes reagiriam ao convívio diário com esses animais.
Por que eles não são totalmente hipoalergênicos
A Can f 1 responde por grande parte da sensibilização associada aos cães, mas não é o único alérgeno da espécie. Proteínas conhecidas como Can f 2, Can f 3, Can f 4, Can f 5, Can f 6 e outras também podem desencadear sintomas. Muitas pessoas reagem a mais de uma delas. Por isso, retirar apenas a Can f 1 pode beneficiar determinados pacientes, sem garantir segurança para todos.
A descoberta é diferente da antiga promessa das chamadas raças hipoalergênicas. Segundo entidades de alergologia, nenhum tipo de pelagem impede completamente uma reação. Estudos anteriores não encontraram redução consistente de alérgenos em residências com raças divulgadas para pessoas alérgicas. A nova abordagem age na origem de uma proteína específica, em vez de depender da quantidade de pelos que o animal solta.
O que ainda precisa ser comprovado
Antes de qualquer oferta ao público, será necessário acompanhar a saúde dos beagles por mais tempo, avaliar efeitos que apareçam com a idade e ampliar os testes com diferentes perfis de sensibilização. Também será preciso verificar se a alteração pode ser transmitida com segurança e se os descendentes mantêm desenvolvimento, comportamento e bem-estar normais.
Nos Estados Unidos, alterações genômicas hereditárias em animais passam por análise regulatória. A própria empresa responsável afirma que os cães não estão disponíveis comercialmente e que a modificação ainda não recebeu aprovação da agência sanitária norte-americana. Não há prazo confirmado para venda, preço ou chegada da tecnologia a outros países. Portanto, qualquer promessa de disponibilidade próxima seria prematura.
Uma inovação que também provoca debate
A possibilidade de reduzir alergias pode ampliar o convívio com cães em famílias que hoje o evitam por orientação médica. Ao mesmo tempo, a edição genética de animais levanta questões sobre bem-estar, clonagem, seleção de características e acesso. Também existe o receio de que a novidade estimule a compra de animais produzidos sob encomenda enquanto abrigos continuam lotados.
Por enquanto, Alfie e Bailey representam uma prova inicial de que é possível eliminar geneticamente um importante alérgeno canino. Para quem sofre com sintomas, nada muda de imediato: a avaliação deve continuar sendo feita por alergista, com testes capazes de identificar quais proteínas provocam a reação. A ciência abriu uma porta relevante, mas ainda precisa demonstrar, em estudos maiores e ao longo do tempo, o que existe com segurança do outro lado.
