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Saúde mental no esporte exige mudança além da resiliência, diz COI.

Publicada em: 15/08/2026 12:00 -

A imagem do atleta capaz de suportar qualquer pressão ainda ocupa espaço no esporte. Um novo consenso do Comitê Olímpico Internacional, divulgado em agosto de 2026, contesta essa expectativa ao defender que saúde mental não depende apenas de força individual. O cuidado precisa envolver dirigentes, treinadores, profissionais de saúde, colegas e toda a estrutura que cerca quem compete em alto nível.

Bem-estar não é o oposto de desempenho

O documento, publicado no British Journal of Sports Medicine, atualiza as recomendações de 2019. A análise foi conduzida por um painel internacional de 31 pessoas com experiência científica, clínica e vivida. O ponto central é tratar a saúde mental como um estado dinâmico, que pode mudar com a rotina, os relacionamentos, a pressão competitiva e os acontecimentos da carreira.

Isso significa reconhecer situações que não configuram necessariamente um transtorno. Ansiedade antes de uma competição, frustração após uma derrota ou tensão durante um período intenso de treinamento podem ser respostas temporárias. Ainda assim, merecem atenção quando persistem, causam sofrimento ou prejudicam sono, relações, decisões e funcionamento cotidiano.

Uma revisão de 72 estudos, preparada para apoiar o novo consenso, identificou sintomas de saúde mental entre atletas em atividade, aposentados e integrantes das equipes de apoio. Os resultados variaram bastante entre grupos e modalidades. Essa diferença impede transformar as estimativas em uma taxa universal, mas reforça que desempenho elevado não protege automaticamente contra sofrimento psicológico.

A responsabilidade não pode ficar só com o atleta

O consenso recomenda que organizações esportivas criem ambientes psicologicamente seguros, com regras claras de proteção, lideranças preparadas e acesso real a profissionais qualificados. A ideia é substituir a reação tardia por acompanhamento contínuo, realizado em momentos definidos e também depois de acontecimentos importantes. O cuidado deve alcançar também treinadores, equipes médicas e profissionais de desempenho, que convivem com pressões intensas dentro do mesmo sistema.

Lesões, retorno às competições, seleção ou dispensa, mudança de equipe, grandes torneios e aposentadoria estão entre as transições que podem aumentar a vulnerabilidade. Atletas adolescentes e paralímpicos exigem atenção às suas necessidades específicas, incluindo etapa do desenvolvimento, demandas escolares, acessibilidade, classificação esportiva e barreiras próprias de cada contexto.

Confidencialidade também é essencial. Pesquisas anteriores mostram que medo de perder espaço na equipe, estigma e dúvida sobre quem terá acesso às informações afastam atletas da ajuda profissional. Não basta oferecer um serviço se a pessoa acredita que procurar apoio poderá comprometer sua carreira.

Triagem não significa diagnóstico

O acompanhamento periódico pode ajudar a perceber mudanças e encaminhar quem precisa de avaliação. Entretanto, um questionário de triagem não confirma transtorno nem define tratamento. O diagnóstico depende de avaliação clínica, e qualquer cuidado deve ser individualizado, baseado em evidências e adequado à cultura, à idade e às circunstâncias da pessoa.

O texto também recomenda planos de emergência com funções e caminhos de encaminhamento previamente definidos. Esses protocolos precisam ser conhecidos, ensaiados e revistos, para que uma situação de risco não seja tratada de maneira improvisada.

Treinadores e integrantes da equipe não devem assumir o papel de terapeutas. Sua função é reconhecer sinais, ouvir sem julgamento, respeitar limites e facilitar o acesso ao atendimento correto. Para organizações esportivas, a mensagem é direta: bem-estar não pode aparecer apenas em campanhas. Precisa orientar decisões sobre calendário, carga de treinamento, lesões, segurança, comunicação e transições.

Para atletas, buscar ajuda não representa falta de preparo mental. O novo consenso propõe justamente o contrário: cuidar da saúde psicológica faz parte de uma participação esportiva segura, ética e sustentável, com ou sem diagnóstico e independentemente do resultado da competição.

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