O número exibido pela balança não conta toda a história sobre a saúde do coração. Um novo estudo com 259.388 adultos mostrou que a circunferência da cintura e a relação entre cintura e quadril acrescentam informações importantes ao índice de massa corporal, o IMC, usado há décadas para classificar baixo peso, peso normal, sobrepeso e obesidade.
Os participantes faziam parte de 15 estudos prospectivos e não apresentavam doença coronariana no início da análise. Durante um acompanhamento mediano de 20 anos, os pesquisadores avaliaram nove desfechos, entre eles infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e mortes por causas cardiovasculares ou por qualquer causa.
O principal achado foi a diferença entre a categoria definida pelo IMC e a quantidade de gordura concentrada no abdômen. Algumas pessoas classificadas com peso normal apresentavam medidas centrais elevadas, enquanto parte daquelas enquadradas na faixa de obesidade tinha cintura ou relação cintura-quadril abaixo dos limites adotados no estudo.
Por que o IMC pode esconder diferenças
O IMC é calculado pela divisão do peso pela altura ao quadrado. Ele é simples, barato e útil para analisar populações, mas não distingue gordura de massa muscular nem informa em qual parte do corpo o tecido adiposo está acumulado. Duas pessoas com o mesmo resultado podem, portanto, apresentar composições corporais e perfis metabólicos distintos.
A gordura visceral, localizada ao redor dos órgãos abdominais, está mais relacionada a alterações metabólicas do que a gordura subcutânea, situada logo abaixo da pele. A medida da cintura não identifica diretamente cada tipo de gordura, mas funciona como um indicador acessível da adiposidade central quando é realizada de forma padronizada.
Entre os participantes classificados com peso normal pelo IMC, 5% tinham cintura elevada e 18% apresentavam relação cintura-quadril alta. Nas faixas de peso normal ou sobrepeso, valores elevados dessas duas medidas foram associados a risco entre 15% e 50% maior para a maioria dos desfechos avaliados.
Isso não significa que o IMC tenha perdido toda a utilidade nem que uma fita métrica determine sozinha o risco de alguém. O resultado reforça que diferentes medidas devem ser interpretadas em conjunto, especialmente quando o peso parece adequado, mas existe maior concentração de gordura na região abdominal.
O que o estudo não consegue provar
A pesquisa foi observacional. Ela identifica associações ao longo do tempo, mas não demonstra que a cintura elevada tenha causado diretamente cada evento cardiovascular. Os autores também não dispunham de informações completas sobre alimentação, atividade física ou risco genético e usaram apenas uma medição de cintura e quadril, sem acompanhar possíveis mudanças durante os anos seguintes.
Outro cuidado envolve os pontos de corte. Valores de referência podem variar conforme sexo, idade, população e critério clínico utilizado. Por isso, comparar uma medida caseira com uma tabela isolada pode gerar falsa segurança ou preocupação desnecessária.
Avaliação deve olhar o conjunto
Na prática, a nova evidência apoia uma avaliação menos dependente de um único número. Pressão arterial, glicemia, colesterol, tabagismo, histórico familiar, idade, nível de atividade física e doenças já diagnosticadas continuam essenciais para estimar o risco cardiovascular.
A repetição padronizada das medidas ao longo do tempo também pode acrescentar contexto clínico.
A circunferência da cintura e a relação cintura-quadril podem ajudar a revelar risco que o IMC não percebe, mas não servem para indicar medicamentos ou dietas por conta própria. Quem notar aumento persistente da região abdominal ou tiver outros fatores de risco deve procurar médico ou profissional qualificado para uma avaliação individual, sem recorrer a soluções rápidas ou automedicação.
