Onze livros, onze editoras e uma única despedida literária. Entre 21 e 28 de agosto de 2026, o escritor francês Antoine Volodine coloca em circulação os volumes de Retour au goudron, projeto que encerra uma obra desenvolvida durante quatro décadas. Em vez de concentrar o lançamento em uma casa editorial, ele reuniu editoras como Actes Sud, Minuit, Seuil, Verdier, Rivages e Robert Laffont em uma ação conjunta pouco comum no mercado livreiro.
Os livros aparecem sob a assinatura Infernus Iohannes, apresentada como uma voz coletiva do universo criado por Volodine. Embora sejam publicados separadamente, todos integram uma mesma construção narrativa. O conjunto foi organizado a partir de 343 cadernos chamados pelo autor de “bárdicos”, com histórias, diálogos, sonhos, registros fotográficos e outras formas difíceis de encaixar em um único gênero.
O que é o pós-exotismo
Volodine começou a desenvolver o pós-exotismo nos anos 1980. O termo não descreve apenas um estilo, mas uma literatura imaginária produzida por autores fictícios, prisioneiros, sobreviventes, revolucionários derrotados e narradores que parecem falar de mundos destruídos. O escritor assume o papel de porta-voz dessas identidades e publica com nomes diferentes, entre eles Manuela Draeger, Lutz Bassmann e Infernus Iohannes.
Nesse universo, realidade, sonho e lembrança se confundem. Catástrofes políticas, fracasso de revoluções, vida após a morte, solidão e resistência aparecem ao lado de humor absurdo e imagens fantásticas. Os novos volumes retomam esses elementos por caminhos independentes, o que permite começar por diferentes pontos sem seguir uma ordem obrigatória.
Onze portas para o mesmo final
A coleção inclui Bardo solo, Ultimes sursauts, Chagrins, La Grande Misère, Défections et Cie, Mémoire, mode d’effroi, Les Meilleurs d’entre nous, Survies minuscules, Malaise chez les plongeuses, Zone crypte, zone miroir e Dernière Livraison. Cada editora ficou responsável por um volume, com projeto gráfico, número de páginas e data próprios.
As narrativas passam por mortos em trânsito, sobreviventes de paisagens devastadas, seres fantásticos, religiosos, soldados e personagens presos a lembranças instáveis. O tom alterna melancolia, horror, sátira e experimentação. Dernière Livraison, publicado pela La Marelle, ocupa uma posição especial porque reúne os últimos cadernos e fecha formalmente o projeto.
O resultado não funciona como uma série convencional. Os 11 livros compõem uma instalação literária distribuída, pensada para ser lida por partes ou como um grande mosaico. A participação de editoras concorrentes também transforma o lançamento em um gesto coletivo, baseado na relação que Volodine construiu com diferentes casas ao longo da carreira.
Como os leitores brasileiros podem conhecer a obra
Até 24 de agosto de 2026, não havia anúncio de tradução brasileira para os volumes de Retour au goudron. As edições confirmadas estão em francês, em formato impresso, e alguns títulos também possuem versão digital. Os nomes originais, portanto, devem ser preservados e não podem ser apresentados como títulos oficiais em português.
Quem deseja conhecer Volodine sem começar pela coleção completa encontra no Brasil Viver dentro do fogo, publicado em português pela Editora Ercolano em 2025, com tradução de Julia da Rosa Simões. O romance de 152 páginas acompanha um soldado que, diante da morte iminente, cria histórias para prolongar sua existência. É uma entrada mais curta para temas recorrentes do autor, como guerra, memória, imaginação e sobrevivência.
Com Retour au goudron, Volodine não entrega apenas um último livro. Ele desmonta a própria ideia de autoria individual e encerra seu projeto por meio de várias vozes, formatos e editoras, mantendo até o fim a lógica singular que definiu sua trajetória.
